- Hei-de, não hei-de ?
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Diabos te levem.
Faz tanto tempo que não tinha um dia assim. Não me lembrava sequer de como era sentir-me de tal jeito. Desfeita, assombrada, ridiculamente perturbada e incapaz de me recompor. Há tanto que não me envolvia naquele pranto imenso sem conseguir tomar controlo. Latejava-me a cabeça, tremia todo o corpo, as lágrimas corriam sem cessar, molhando a roupa que trazia e o lençol em que me enrolara. Passei a noite inteira nesse transtorno psíquico. Não vi o sono aproximar-se, e até a este momento, as únicas vezes que as pálpebras fecharam foi para tentar sacudir as lágrimas que se colavam ás pestanas. Agora que acalmei, penso : como cheguei a este ponto, como sequer cá cheguei por tua causa, que visto o sucedido não mereces nada de mim, nem sorriso nem lágrima. Diabos te levem pelo mal que me estás a fazer ainda. Como me pude eu reduzir a isto, como sequer me apeguei a ti, pelo que és, não sei. Mas há-de terminar. Hei-de conseguir por travão a isto, seja sentimento ou carência, seja real ou pura parvoíce. Hei-de triunfar, sem ti, sem ninguém. Hei-de rir-me de ti e de tudo isto.
Hoje. Apenas hoje.
Quando me reduzo a isto, não sei mais o que fui, o que sou. Nem sequer sei se algo sou. Tenho já como hábito um deambulismo discreto, de forma a que exista e ninguém repare. Movo-me no espaço, mas na realidade faço-o no tempo. Não despego, não consigo, não deixo o passado que me trouxe ao Hoje, não esqueço aquele outrora em que a felicidade era o prato do dia - hoje no prato só vejo moscas.
Penso e repenso, consumo a massa cinzenta com remorsos que nem são meus, remorsos pelo tempo que passa. Não volta, e o que não fizeste, fizesses. Choro, grito. Pontapeio a saudade que contra a minha vontade se dirige a mim como um boomerang. Eu enxoto mas ela volta - volta dizendo ser minha, volta dizendo ser eu.
Os olhos fechados permitem-me ainda ver-te, mesmo quando aqui na realidade já não existe vestígio de ti - de olhos abertos sinto o teu toque, o cheiro natural da tua pele, sinto a tua voz, a forma como chamavas por mim - foste e não regressaste.
Hoje, sou saudade de mim e de ti, sou saudade de todos os que tive, sou saudade do que fui e do que fomos.
Hoje, precisava tanto de ti aqui.
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Naufrágio - a saga continua.
Naufraguei. A fúria do que me envolvia era imensa, entrava em mim, sufocava. No aquando do naufrágio, já havia um alguém, esperando resgatar-me e devolver-me a alegria perdida com o tempo. De inicio rejeitei. Sobrevivi meses a fio naquele mar gélido, sozinha, naquelas ondas iradas. Até que um dia, de tanto ver aquela mão esticada, que por ser familiar já lhe nutria carinho, decidi arriscar e salvar-me, pois o navio em que eu vira, jamais voltaria. Aferrei aquela mão que há tanto manifestava querer-me, tomei-a como única salvação possivel, e assim que a alcancei, a alma tornou-se outra, a dor morrera. Estava sã e salva, aparentemente. A mão que me salvara permanecera comigo, durante bastante tempo ainda. Mas tal dia, sem que me lembre bem quando, onde ou porquê, largou-me num abismo, perto daquele do qual me salvara.
Cá voltei eu ao mesmo, enrolada nas ondas que me sufocam o ser, dentro de um gélido sentimento, mas desta vez, sem mãos à vista.
Cá voltei eu ao mesmo, enrolada nas ondas que me sufocam o ser, dentro de um gélido sentimento, mas desta vez, sem mãos à vista.
Era uma fonte de pedra que já não dava água. Era uma rua nova onde ninguém jamais passara. Era uma viajem de graça por quem ninguém se interessava. Era um relógio Suíço sempre atrasado.
Era uma vida sem sentido que todos pioravam. Era uma garota mesquinha de tão boa que fora. Eram lágrimas de sangue de tão fundo que vinham. Eram egoísmos inevitáveis de tanto se ter entregue. Era uma alma ao abandono. Era uma eterna apaixonada pelo homem sempre errado. Era uma menina que aguardava a morte por não gostar da solidão.
Hoje, a fonte de pedra dá água; a nova rua é corrida por milhares; a viajem de graça é procurada por todos; o relógio Suíço foi concertado.
Hoje, a vida sem sentido pioram-na ainda a cada dia; a garota mesquinha assim continua; as lágrimas continuam sendo de sangue por ainda virem de tão fundo; os egoísmos continuam sendo inevitáveis, por se entregar ainda em demasia; a alma permanece abandonada; o homem errado continua a ser amado; a moça ainda aguarda a morte por não deixar a solidão.
Era uma vez, eu com 15 anos.
Hoje tenho 18, e a dor é igual. O amor mudou, mas a solidão insiste em querer-me.
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Escavações fatais.
Tenho um tesouro. Nasceu comigo sob forma de coração, esperando durante muito ser descoberto. Nas escavações do meu ser, feitas por estranhos, ele se revelou. E como tudo o que é proibido, atraiu. Não sei como, muito menos sei porquê - mas quiseram-no possuir, quiseram que eu pertencesse. Deixei-me ir, na ingénua esperança de que a realidade das palavras fosse aquela que me era mostrada. Acreditei, vivi, senti. Repetitivamente. Intensamente, como apenas sei fazer.
Mais uma, e outra, e outra ainda, perdi. Perdi o que quase - mas sem rancor - me obrigaram a construir. Carinho - essa enorme força que desde sempre me move.
A dor é imensa, a frustração quase de tal tamanho. O ódio por mim mesma contudo já não o sinto - sossega-me o pensar que para eles fui uma enorme dissipação.
Hei-de ser feliz, não com um príncipe, mas com um sapo *.*
A dor é imensa, a frustração quase de tal tamanho. O ódio por mim mesma contudo já não o sinto - sossega-me o pensar que para eles fui uma enorme dissipação.
Hei-de ser feliz, não com um príncipe, mas com um sapo *.*
Fado.
Possuo por dentro, uma mancha, pesada e negra. Entrou em mim faz muitos anos. Já enraizada está. Não sai, e teima em sobejar. Faz de mim alguém que se alimenta das pessoas como quem da droga sobrevive. Criei dependência não sei de quem, nem sei porquê. A solidão já é um estado impossível de suportar, o sentimento já move montes e reaviva marés. Sou de qualquer um, qualquer ser que me saiba levar, qualquer ser que me minta e me faça acreditar. Sou de tantos, sendo de ninguém. Passo por muitos, e no fim fico só. Sempre foi assim, sempre assim será. Já é fado o meu, que me sinta bem e tanto, a ponto de me largarem. Largam-me, como se a minha fidelidade não mais valesse que a de um cão. Ao desamparo fico, ao desamparo estou.
É já fado o meu, que não passe de ser a outra ou mesmo só mais uma.
Contigo, não foi diferente ...
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