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Not this way !

Ainda não entendo. Não era suposto ter acontecido deste modo. Não foi desta forma que planeei. Poderia ter dado tudo certo. Mas não deu, e cá ando eu num pranto enorme e  tridimensional, que quase se assemelha ao que tinha no passado por esta altura. Os motivos não se cruzam, mas a dor - que em ambos os casos pode ser considerada rejeição - permanece intensa do mesmo modo. Não é isto que quero, não o é de todo. Foi-me negado um sonho, dos maiores, talvez por demasiado entusiasmo, talvez por ter planeado demais. Só isto pedia. Eu lá em cima, onde queria e no que queria. Não podia ter corrido deste jeito, de todo, não podia. Ontem fui onde me mandaram. O nó no estômago e o outro na garganta, fizeram-me visita depois de há tanto terem desaparecido. Não respirava,não ouvia, não falava quase. Senti-me perdida, tanto mais do que quando tive de mudar de país ! Não quero isto, juro que não quero !
Talvez dia 29 a minha sorte mude, talvez dia 29 o sorriso volte ao meu rosto. Talvez, até fique tudo como está...

Diabos te levem.

Faz tanto tempo que não tinha um dia assim. Não me lembrava sequer de como era sentir-me de tal jeito. Desfeita, assombrada, ridiculamente perturbada e incapaz de me recompor. Há tanto que não me envolvia naquele pranto imenso sem conseguir  tomar controlo. Latejava-me a cabeça, tremia todo o corpo, as lágrimas corriam sem cessar, molhando a roupa que trazia e o lençol em que me enrolara. Passei  a noite inteira nesse transtorno psíquico. Não vi o sono aproximar-se, e até a este momento, as únicas vezes que as pálpebras fecharam foi para tentar sacudir as lágrimas que se colavam ás pestanas. Agora que acalmei, penso : como cheguei a este ponto, como sequer cá cheguei por tua causa, que visto o sucedido não mereces nada de mim, nem sorriso nem lágrima. Diabos te levem pelo mal que me estás a fazer ainda. Como me pude eu reduzir a isto, como sequer me apeguei a ti, pelo que és, não sei. Mas há-de terminar. Hei-de conseguir por travão a isto, seja sentimento ou carência, seja real ou pura parvoíce. Hei-de triunfar, sem ti, sem ninguém. Hei-de rir-me de ti e de tudo isto.

 - Hei-de, não hei-de ?

A estante.

Pó. Tanto dele que encontro rodeando a estante. Esta por sua vez, está vazia de livros. Não preenche os espaços devidos. Ando à sua volta, tentando perceber de que material é feita: de sonhos destruídos, parece - o que explica o estado degradante. Piso de improviso e sem me aperceber algo com certo relevo, disposto no chão. É um dos livros que devia estar nessa estante, mas não mais há em redor. Sacudo-lhe o mofo que o envolve, leio-lhe o título - "Vida desfeita, a tua" .
Olho para cada prateleira - que muitas são - em cada uma está gravado o meu nome e uma faixa etária. A mais cimeira, diz "Marilena no fim da história".
Vejo que nessa cimeira, há um espaço onde o pó não chegou - foi daí que o livro caiu.
Não há memórias nem escritos de tudo o que fui, de tudo o que fiz, porque no fim, nada importa, nada tem valor, se termino assim , desfeita.

Hoje. Apenas hoje.

Quando me reduzo a isto, não sei mais o que fui, o que sou. Nem sequer sei se algo sou. Tenho já como hábito um deambulismo discreto, de forma a que exista e ninguém repare. Movo-me no espaço, mas na realidade faço-o no tempo. Não despego, não consigo, não deixo o passado que me trouxe ao Hoje, não esqueço aquele outrora em que a felicidade era o prato do dia - hoje no prato só vejo moscas.
Penso e repenso, consumo a massa cinzenta com remorsos que nem são meus, remorsos pelo tempo que passa. Não volta, e o que não fizeste, fizesses. Choro, grito. Pontapeio a saudade que contra a minha vontade se dirige a mim como um boomerang. Eu enxoto mas ela volta - volta dizendo ser minha, volta dizendo ser eu.
Os olhos fechados permitem-me ainda ver-te, mesmo quando aqui na realidade já não existe vestígio de ti - de olhos abertos sinto o teu toque, o cheiro natural da tua pele, sinto a tua voz, a forma como chamavas por mim - foste e não regressaste.
Hoje, sou saudade de mim e de ti, sou saudade de todos os que tive, sou saudade do que fui e do que fomos.
Hoje, precisava tanto de ti aqui.